UMA PORTA PARA A AVENTURA

Uma infancia cheia de sonhos e um sonho de infancia cheio de aventuras.

domingo, 7 de outubro de 2007

TETRACLOROETILENO

A lua com sua magia iluminava a noite que mal começara. Aparecido sentado numa cadeira de assento feito de taboa ao lado de sua companheira, olhava pensativo para o horizonte como se quisesse buscar a resposta a alguma pergunta. Talvez uma volta ao passado. A Irondina aproveitava a luz da lua prá debulhar umas vagens de feijão catador que colhera a tarde na hora que fora levar a merenda na roça.
Os meninos inquietos corriam de um lado para outro buscando algo para fazer. De repente um deles e veio com uma sugestão: “Mamãe, pode chamá o Vardeci e o Jura prá brinca com nóis aqui em casa? Fais tempo que a gente num brinca junto”. E a Irondina que se sempre colocava em segunda autoridade, deixando a decisão definitiva com o pai: “Fala lá pro seu pai, se ele dexá...”.
Esta era a palavra mágica. Pedir para o pai era mais difícil, pois sempre havia um motivo para proibir as crianças de fazer barulho para perturbar o descanso, pois a vida da lavoura não permitia exageros de ficar acordados até tarde. No máximo às nove horas da noite todos iam para a cama. Mas ainda era cedo: não passava das seis. Não custava tentar.
Cido continuava a olhar no horizonte num gesto pensativo com o cotovelo no joelho e a cabeça apoiada em uma das mãos sem prestar muita atenção na conversa das crianças. “Fala você prá ele mãe”, insistia a menina Ira, baixinho no ouvido da mãe, que gostava de participar das brincadeiras com os primos. “A gente pode chamá a Rosa e a Creuza prá brincá tamem... Se elas quisé...”.
A Rosa e a Creuza eram as primas mais velhas filhas do Paulo que moravam na última casa do sitio na divisa das terras do Seu José Batista. O Valdecir e o Jura ( o nome dele era Doraci) eram filhos da Laura e do João, irmã e cunhado que dividiam o sitio.
“Tá bão. Só que não vai fazê latomia que seu pai num gosta de tropé quando ela tá descansano” concordara a mãe, chamando a atenção do Aparecido: “Parecido, os menino tão querendo chamá os primo prá brincá aqui em casa. Pode dexá?” – Falou com jeito meio ressabiada esperando talvez uma resposta negativa.
Cido olhou como se quisesse entender o que se passava. Não tinha motivo nenhum para proibir os meninos de brincarem. Eram crianças muito saudáveis e já ajudavam muito nos afazeres do sitio: “Dexa. Num pode é ficar até muito tarde, que nóis precisa descansar cedo. Amanhã temo que coiê o milho do meio do café. Todo mundo vai prá roça”.
E lá foram todos alegres e felizes para voltar em breve com todos os primos prometidos. “Vamo brincá de balança-caxão? Quem vai ser o primeiro?. – dizia o Vardê da Laura que costumava liderar as brincadeiras do grupo. “ Ocê. Ocê fica prá procurá primeiro” . Indicou o Cilo. “Nóis vamo se escondê”.
“Não sinhor. Vamo tirá na pedrinha. O úrtimo fica prá procurá”. – Determinou então o Vardê.
E assim foi. O Neno, um dos mais jovens, ficou sendo o primeiro a procurar. O pai acompanhava tudo e viu que de certa forma os mais velhos enganaram para que ele ficasse para procurar:
Todos em fila, um atrás do outro, curvados para frente:
- Balança caixão
- Balança você
- Dá um tapa na bunda e vai escondê.
E todos iam se enconder. Cada um escolhia um lugar mais difícil e depois ia facilitando para chegar mais perto do pique para se salvar e continuar se escondendo na próxima brincadeira. O primeiro a ser achado seria o próximo “procurador”.

Com toda aquele movimento, não foi possível que Aparecido não prestasse atenção nas brincadeiras dos meninos. Ficou observar o Neno a correr de um lado para outro a procurar os escondidos. “Jura. Achei. Um, dois, três”. Já tinha conquistado o direito de se esconder na próxima.

Vendo toda aquela saúde do menino Neno, Aparecido se lembrou de uma história que fez a vida daquele menino estar à prova de Deus e de um remédio:

Neno ainda era pequeno, começava a dar os primeiros passos pelo chão de terra batido da casa de pau-a-pique quando encontrou uma lamparina de querosene largada num canto do quarto. Brincou com ela, derrubou um pouco do líquido no chão, levantou e saiu com ela para a cozinha. “Mamâ. Mamã...”
A mãe não estava por ali. A lamparina cheia de querosene balançava nas mãos daquele pequeno quase que caindo por causa do pouco controle que possuía. Caminhou mais um pouco, e se sentou, tirou o bico da lamparina e num gesto quase que instintivo levou à boca e bebeu aquele líquido repugnante.”Mamã. Mamãããã!!!”
A lamparina de querosene caiu pro lado e continuou a vazar pelo chão afora. Neno num choro quase sentido chamou a atenção da mãe que veio correndo: “Menino, que estrepolia é essa? O que aconteceu? Será que num pode ficá queto um pôco?”.
- Mamãããã!!!!
- Que qui é essa lamparina aí no chão. Meu Deus, ocê bebeu querosene? Minha Nossa sinhora.
Foi um tropé só. Todas as atenções foram para aquele acontecimento. O Neno tomou querosene e poderia estar envenenado: “Dá leite prá ele mãmãe. Se a sinhora quisé eu vô buscá lá na Dona Luzia do seu Carlos”, dizia a Zilda, se colocando a serviço.
“Num precisa. Vai chamá o seu pai. Temo que levá ele na farmácia prá tomá argum remédio”, determinou Irondina, querendo dividir com o companheiro aquela angústia.
O choro continuou junto com a tosse. De vez em quando Neno perdia o fôlego e era preciso virá-lo de cabeça para baixo, soprar no seu nariz para que ele voltasse a respirar.
Foi na farmácia e o farmacêutico diagnosticou: “Não tem problema não. Ele tomou só um pouquinho. Não vai ser tão grave. Eu vou dar esse remedinho aqui e vai limpar o estômago dele e amanhã deve estar bom. Depois dê bastante leite e água pra ele”.
O susto passou, mas o menino não ficou bom desde aquele dia. Deixou de andar, não comia direito, ficava só pelos cantos mole e sem movimentos. “Eu acho que esse minino tá invenenado ainda. Temo que levá ele num médico prá vê isso. Ele num qué andá mais, num come, nem fala mais mamã . Se a gente num corrê nóis pode perdê ele”. A Irondina se mostrava com preocupação de mãe.
“Fica tranqüila, Ronda, amanhã nóis vai no Dr. Arnaldo prá vê se ele dá uns remédio prá ele”, tranqüilizava Aparecido, colocando a mão em seu ombro num gesto de carinho.
E foi assim. Muitas consultas. Muitas outras internações. Muito dinheiro gasto com remédio, com viagens, com hospital e nada de que esse menino reagisse. O Dr. Arnaldo diagnosticou como “anemia profunda” e dava soro e remédios à base de ferro para tentar conter a situação. Nada dava certo.
A situação estava no limite. Não havia mais recursos e todas as possibilidades haviam sido usadas e nada de bom tinha acontecido. As esperanças estavam quase todas perdidas.
Um dia o Aparecido já desesperado, pegou o Neno e Dona Irondina e foram pra Populina conversar com um farmacêutico que o povo dizia que era muito bom. Era o Dr. Orozimbo, um senhor já de alguma idade que tinha uma farmácia naquela pequena vila. Naquele tempo os farmacêuticos substituíam os médicos nas doenças tradicionais e pequenos males.
Após ouvir a história do acontecido, o Senhor Orozimbo diagnosticou: “Esse menino está com verme! Ele está com muitos vermes na barriga. É preciso tomar um lombrigueiro forte prá limpar os bichos. Os bichos tão comendo todo o que ele come”
“Mais nóis já demo lombrigueiro prá ele e num adiantô nada!” – Falou a Dona Irondina
“Agora a sinhora vai dar este daqui”. – Disse o Sr. Orozimbo colocando uma caixa sobre o balcão. “É tetracloroetileno. Dá umas duas pílulas dessas prá ele em jejum de manhã. Depois vocês voltam aqui”.
E foram prá casa. No outro dia foi feito conforme o farmacêutico havia dito. Houve uma limpeza geral na barriguinha do Neno. Junto com as fezes saíram muitas formas de bichinhos. Vermes de todos os tamanhos.
“Óia só. Como é que pode tantos bicho na barriguinha dele. Tamem tem razão dele tá tão fraco”.
Os dias passaram e mais uma dose do remédio foi ministrado. O menino começou a ficar esperto e voltou a ser mais alegre e a fazer as alegrias daquela família.
- Tetracloroetilena, que troço mais difíci de falá. Como nóis podia imaginá que este bendito remédio fosse sarvá a vida do Neno Foi Deus e o Seu Orozimbo. Graças a Deus”.
Daquele dia em diante aquele “remédio” começou a fazer parte da vida de todos. O “lombrigueiro” era obrigatório a todos.
“Balança caixão. Balança você...” – Continuava a brincadeira.
“Graças a Deus”. – Agradecia o Aparecido pela saúde do filho. “Graças a Deus”.

Um comentário:

Histórias & Estórias disse...

TETRACLOROETILENO,kkk!òtima cronica!

UM FORTE ABRAÇO AOS AMIGOS

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Desde o dia 01 de setembro de 2007 estou publicando minhas Memórias. Faz parte de um projeto de livro que deverá ser lançado no dia 18 de janeiro 2010 no espaço da ESCALIBUR no Distrito de Sousas em Campinas.

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Paulo Freitas