UMA PORTA PARA A AVENTURA

Uma infancia cheia de sonhos e um sonho de infancia cheio de aventuras.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A GRANDE COMPANHEIRA

Das três casas que se ergueram no sítio, a casa do Aparecido foi a última a ser construída. Ele deixara para se mudar um ano depois dos irmãos porque precisava terminar a colheita de algodão, contrato de meieiro firmado com Sr. Zeíco, um sitiante do Córrego do Arrancado. A casa se destacava por ser a primeira da entrada. Os comodos foram divididos para receber sua família composta de seis filhos: tres homens e tres mulheres. O mais novo, um menino, tinha apenas tres anos e a mais velha, Del, doze anos.
A esposa e grande companheira, vivia para cuidar das coisas da casa e das crianças. Uma mulher de muitos dotes: organização e limpeza era sua maior virtude. Na culinária não existia um só prato tradicional que ela não conhecia. Podia pedir canjica, bolo de fubá, pamonha, doce de mamão, doce de abóbora, biscoitos de polvilho e mais uma porção de receitas que ela guardava tão bem em sua memória. Na costura também tinha seus dons. Corte de camisa e de calça não tinha problema. Saia prás meninas, calção para os meninos e alguns bordados para os panos de prato. Naquele ano ganhara uma máquina de costura de pedal da “Vigorelli”, o presente que tanto sonhara.
Conta-se que o casamento dos dois se dera por uma contigência do destino. Eles eram primos de segundo grau e moravam na mesma região, um pequena colonia de lavradores próximo ao município de Macedônia no interior de São Paulo. Naquele tempo os namoros eram mais discretos e mais respeitosos.
Ela era uma moça bonita, recatada e de grandes virtudes. Eram poucos que não viam nela um bom partido para um namoro firme para compromisso sério.
Ele era um moço viçoso, gostava de usar boas roupas e de frequentar boas festas. Sua vida era simples e se alegrava com seus amigos jogando futebol e cantando músicas sertanejas. Sabia afinar uma viola como ninguém. Rio Acima era a melhor afinação. Seus melhores companheiros nas cantorias era seu padrinho Marcílio e seu irmão.
Quando acontecia um casamento, grande acontecimento naquele tempo, todos iam de caminhão prá cidade. Os caminhões eram muito usado neste tipo de transporte, pois automóveis ou vans era sonho, principalmente para aquelas pessoas que mau conhecia o trem de ferro. O caminhão era preparado com uma corrente transversal que ligava uma borda à outra da carroceria que servia como apoio e segurança nas danças do jogo de molas quando passava nos buracos das estradas mau conservadas pouco acostumadas ao uso por caminhões ou carros.
Cido se animara quando viu a prima subir no caminhão e procurou um jeito de chegar perto para continuar uma conversa que já vinha de algum tempo. De repente o caminhão tropeçõu, balançou e a mão na corrente se tocaram e os olhares se fixaram um no outro e por algum tempo o calor do toque parecia uma sensação de sabor e adrenalina. As mãos não conseguiam se mover e o calor da face tingia de rosado o semblante dos dois.
O momento foi de tamanha emoção que não perceberam Seu Chico ao lado deles.Um homem sério, barba por fazer, jeito de matuto, numa voz grossa e sem rodeios rompeu o clima daquele momento:
“Cido, dispois ocê passa lá em casa prá nóis acertá esse negócio do seu casamento com a Ronda. Parece que essa estória que ouvi falá por aí tem fundamento. O negócio já tá muito adiantado”.– Sua vóz era compassada e direta.
O seu Chico era o pai, e se sentiu no dever de intervir tentando resguardar a boa moral e costume de não faltar com o respeito.Naquele tempo pegar na mão só podia depois de assumir compromisso de casamento com a família. Se a moça se deixava tocar com estas liberdades poderia ser taxada de mulher fácil e não conseguir bom casamento.
“É bão que seja já na semana que vem. Eu num tô gostano desse negócio de rela-rela não.”
“Tá bão Tio Chico.” – Aparecido sentiu que não adiantava discutir. “ Pode dexá que no domingo que vem nóis conversa.”
Passou alguns meses e acertaram o casamento.
Foi uma cerimônia simples como simples foi o começo da vida dos dois. Sem ter ainda uma direção certa nem um contrato de trabalho, o Aparecido resolveu aceitar a proposta do sogro de morar em sua casa, um rancho mau arrumado na beira da roça, e trabalhar no roçado de um sitiante conhecido que prometeu ajudá-lo. Naquele tempo o Tio Chico estava morando sozinho,perto de Macedônia.
Não foi por muito tempo que os dois viveram com Tio Chico, pois a jeito deseducado de tratar chegou ao limite da tolerância.
Um dia chegando do trabalho cansado, uma conversa foi a gota d’água para o Aparecido tomar uma atitude:“Eu num quero ninguém espantando mias galinha por munto tempo aqui no terrero. É bão ocê arranjá um modo de vida logo, sinão nóis ainda vai tê inguiço”.
Cido não disse nada, entrou prá dentro, guardou as traias e foi tratar dos porcos no chiqueiro.
Depois do banho de bacia e o prato de arroz com abobrinha, uma conversa com a companheira, foi dormir decidido a tomar um rumo. Levantou no outro dia bem cedo e não foi direto prá roça: antes foi em busca do seu destino.
Ao final do dia voltou com uma boa noticia: conseguira um lugarzinho ao sol cedido pelos Manente, a familia de sitiante para o qual ele já trabalhara o roçado.
O rancho já tava pronto, mas num tinha nada para levar: uns poucos trens de cozinha, uma lata de gordura, um litro de querozene, uma lamparina, umas roupa e algumas ferramentas. Cabia tudo em duas malas. A cama de dormir foi construída num girau, uma espécie de prateleira, com a largura de um metro e meio feita com quatro troncos roliços fincados no chão, mais quatro travessa amarradas com cipó e forrado com ripas de coqueiro, trançadas com embira de bananeira. O colchão era de palha de milho, rasgada bem fininho, e quando era mechido dava uma forma arredondada e macia.
O trabalho na roça era duro e ocupava o tempo de sol a sol. Na volta do dia-a-dia sempre encontrava no lar uma boa companhia e um bom colo para o descanso e a boa terapia do sono.
O passar do tempo trouxe também as mudanças de vida. A primeira gravidês se deu naquele mesmo ano e aconteceu a primeira graça da família: uma filha linda que recebeu o nome de Maria Mirnadel e depois somente Del. Depois vieram os outros: Rube, Zilda, Ira, Cilo e Neno.
Com as mudanças foram se fazendo novos amigos, novos conhecimentos, novos lugares. Foi o Geraldo Ignácio, Seu Miguel Lopes e Zeíco. Todos colaboraram na sua caminhada e no seu crescimento de vida , mas não foi tão grande e tão importante quanto a presença constante da companheira, amiga e cúmplice. Um amor sem frescuras, porem com sobras de emoções para perdoar, para ouvir, para sonhar e esperar.


A mud

2 comentários:

Romero disse...

Estou me vendo menino nessas suas memorias. Sou do sertão das Gerais, pras bandas de Governador Valadares, nasci e cesci na roça, esta suas lembranças são um pouco minhas.
parabens pelo projeto, siga em frente, que Deus te ajude.

jotapeh9907 disse...

Por isso que sou dihittiano
Reviver a infância nanas memórios dos amigos, é a coisa mais fantástica deste site de relacionamentos
Me tornei teu fã.
Abraços

UM FORTE ABRAÇO AOS AMIGOS

Obrigado por visitar este espaço.
Desde o dia 01 de setembro de 2007 estou publicando minhas Memórias. Faz parte de um projeto de livro que deverá ser lançado no dia 18 de janeiro 2010 no espaço da ESCALIBUR no Distrito de Sousas em Campinas.

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Paulo Freitas